A discussão sobre a (falta de) qualidade dos gramados paraenses é atemporal e passeia pelo tempo. Imar Nunes, cátedra do jornalismo esportivo paraense, no Esporte em Revista de 16.04.1960, comentando o empate sem gols no RExPA da decisão extra válida pelo certame de 1959, dissertou sobre os gramados regionais e da habilidade dos craques paraense em enfrentá-los:
"O mau tempo, as fortes chuvas que vêm caindo sobre Belém há dois domingos consecutivos impediram de fazer um balanço exato das possibilidade técnicas dos quadros do Paissandu e Clube do Remo. Sou pelo ponto de vista de que o jogador bom adapta-se a qualquer terreno, mormente os formados em gramados regionais, castigados que são pelas chuvas durante quase todo o ano".
O Tablóide Paraense, "O Estado do Pará" de 09 de abril de 1962, retratou Quarenta, maior ídolo bicolor, em matéria ilustrada sob uma foto icônica do craque com o uniforme enlameado bebendo água em um cantil, como "o mignon atacante que foi um herói no gramado lamacento do Souza". Quarenta correspondeu a homenagem conduzindo o bicolor paraense, debaixo de um verdadeiro “toró”, ao título estadual de 1961, mesmo tendo deixado o campo de jogo em decorrência de um golpe na costela aplicado pelo defensor azulino Ribeiro, que terminou expulso.
Expedito
Leal, jornalista e escritor, em seu livro “RExPA, a rivalidade glorisosa”,
retratou esse jogo, destacando
as habilidades do maestro bicolor no gramado castigado:
“Lembro de
uma decisão no antigo estádio do Souza, o “Francisco Vasques”, da Tuna, aí pelo
início dos anos 1960. O Remo jogava pelo empate na partida final. Mesmo
desfrutando dessa vantagem, o Paissandu foi quem abriu o placar. Que foi assim
até o final do jogo, pelo estupendo desempenho de Quarenta, postado à frente de
sua zaga, como se fosse um líbero. Chovia bastante, e o gramado estava quase
sem condições de jogo. Aquele jogador minúsculo e habilidoso mostrava-se um
gigante, impedindo os avanços remistas e saindo da grande área, jogando com a
bola dominada com rara destreza no gramado encharcado”.
Nesta dita final, vencida pelo Paysandu por 1x0 com o rival jogando pelo empate, o título foi para a Curuzú graças a um gol solitário de Ércio, lendário ponta do Paysandu, chutando de longa distância um petardo que seria fatalmente tranquilo para a defesa do goleiro azulino Edgar, se não fosse uma saliência no gramado do Souza, um típico “motinho artilheiro”, que desviou a trajetória da bola. O destino foi cruel com Edgar, que foi para o jogo "na fogueira", pois era reserva de Arlindo, que não pôde atuar. O goleiro ainda agachou para fazer uma defesa que pareceria fácil, mas morreu no fundo das redes.
A mesma reportagem, escrita pelo Mestre Calá, que retratou Quarenta como o grande condutor do Paysandu a conquista de 1961, destacou, na 5ª chamada inaugural da matéria, o lance que pôs fim ao certame: "Edgard agachou-se cedo de mais no lance do goal". No decorrer da matéria, Mestre Calá descreve o lance:
"Um gol apenas decidiu o título. E por simples ou mera coincidência comum do futebol embora na peleja tenha se registrado lances dignos de se transformarem em goals, o tento que decidiu a coroa máxima de 61, foi ocasionado em grande parte por um lance de sorte e azar. Sorte para o atacante Ércio ao atirar aos 7 minutos de fora da área, à meia altura, batendo a bola no gramado e traindo o arqueiro Edgard que estava pronto para a defesa".
Intrometendo-me nas letras do Mestre Calá, o gol de Ércio foi mais do que uma obra do acaso. Foi, sobretudo, sorte.
De campeão.
Detalhes da Partida:
08.04.1962 - PAYSANDU 1 x 0 REMO - Estádio Francisco Vasques (Souza) - Árbitro: Eunápio de Queiroz (RJ) - Paysandu: Jorge; Olinto, Odir, Maurício (Élson), Edilson; Mangaba, Quarenta; Pau Preto, Luciano, Carlos Alberto "Urubú", ´Ércio. Treinador: Gentil Cardoso - Remo: Edgar; Ênio, Ribeiro; Isaías, Socó, Xavier; Jorge de Castro, Estanislau, Sessenta, Câmara (Nivaldo) . Treinador: Sávio Ferreira. Gols do Jogo: Ércio (1).
Fontes:
COSTA, Ferreira da. Parazão Centenário - A História do Campeonato Paraense de Futebol, 2012. Página 131.
LEAL, Expedito. RexPA: A rivalidade gloriosa, 2013, Página 99.
COSTA, Ferreira da. Gigantes do Futebol Paraense, Vol.1, 2014, Página 132.
Mestre Calá. Craques na Balança: Quarentinha: O Davi-Golias do Clássico (Reportagem). Jornal "O Estado do Pará", 09 de Abril de 1962.
Imar Nunes. Esporte em Revista, 16 de abril de 1960.