sábado, 26 de fevereiro de 2022

UM GOL INUSITADO E A DECISÃO DO PARAENSE DE 1961



 
    

A discussão sobre a (falta de) qualidade dos gramados paraenses é atemporal e passeia pelo tempo. Imar Nunes, cátedra do jornalismo esportivo paraense, no Esporte em Revista de 16.04.1960, comentando  o empate sem gols no RExPA da decisão extra válida pelo certame de 1959, dissertou sobre os gramados regionais e da habilidade dos craques paraense em enfrentá-los: 

"O mau tempo, as fortes chuvas que vêm caindo sobre Belém há dois domingos consecutivos impediram de fazer um balanço exato das possibilidade técnicas dos quadros do Paissandu e Clube do Remo. Sou pelo ponto de vista de que o jogador bom adapta-se a qualquer terreno, mormente os formados em gramados regionais, castigados que são pelas chuvas durante quase todo o ano". 


Coluna escrita por Ilmar Nunes ao Esporte em Revista (16.04.1960)

O Tablóide Paraense, "O Estado do Pará" de 09 de abril de 1962, retratou Quarenta, maior ídolo bicolor, em matéria ilustrada sob uma foto icônica do craque com o uniforme enlameado bebendo água em um cantil, como "o mignon atacante que foi um herói no gramado lamacento do Souza". Quarenta correspondeu a homenagem conduzindo o bicolor paraense, debaixo de um verdadeiro “toró”, ao título estadual de 1961, mesmo tendo deixado o campo de jogo em decorrência de um golpe na costela aplicado pelo defensor azulino Ribeiro, que terminou expulso. 


Foto de Quarenta estampada no Estado do Pará de 09.04.1962

Expedito Leal, jornalista e escritor, em seu livro “RExPA, a rivalidade glorisosa”, retratou esse jogo, destacando as habilidades do maestro bicolor no gramado castigado:

“Lembro de uma decisão no antigo estádio do Souza, o “Francisco Vasques”, da Tuna, aí pelo início dos anos 1960. O Remo jogava pelo empate na partida final. Mesmo desfrutando dessa vantagem, o Paissandu foi quem abriu o placar. Que foi assim até o final do jogo, pelo estupendo desempenho de Quarenta, postado à frente de sua zaga, como se fosse um líbero. Chovia bastante, e o gramado estava quase sem condições de jogo. Aquele jogador minúsculo e habilidoso mostrava-se um gigante, impedindo os avanços remistas e saindo da grande área, jogando com a bola dominada com rara destreza no gramado encharcado”.

Nesta dita final, vencida pelo Paysandu por 1x0 com o rival jogando pelo empate, o título foi para a Curuzú graças a um gol solitário de Ércio, lendário ponta do Paysandu, chutando de longa distância um petardo que seria fatalmente tranquilo para a defesa do goleiro azulino Edgar, se não fosse uma saliência no gramado do Souza, um típico “motinho artilheiro”, que desviou a trajetória da bola. O destino foi cruel com Edgar, que foi para o jogo "na fogueira", pois era reserva de Arlindo, que não pôde atuar. O goleiro ainda agachou para fazer uma defesa que pareceria fácil, mas morreu no fundo das redes. 


Reportagem do Jornal Estado do Pará sobre a decisão de 1961. 

A mesma reportagem, escrita pelo Mestre Calá, que retratou Quarenta como o grande condutor do Paysandu a conquista de 1961, destacou, na 5ª chamada inaugural da matéria, o lance que pôs fim ao certame: "Edgard agachou-se cedo de mais no lance do goal". No decorrer da matéria, Mestre Calá descreve o lance:

 "Um gol apenas decidiu o título. E por simples ou mera coincidência comum do futebol embora na peleja tenha se registrado lances dignos de se transformarem em goals, o tento que decidiu a coroa máxima de 61, foi ocasionado em grande parte por um lance de sorte e azar. Sorte para o atacante Ércio ao atirar aos 7 minutos de fora da área, à meia altura, batendo a bola no gramado e traindo o arqueiro Edgard que estava pronto para a defesa". 

Intrometendo-me nas letras do Mestre Calá, o gol de Ércio foi mais do que uma obra do acaso. Foi, sobretudo, sorte. 

De campeão. 


Detalhes da Partida: 

 08.04.1962 - PAYSANDU 1 x 0 REMO - Estádio Francisco Vasques (Souza) - Árbitro: Eunápio de Queiroz (RJ) - Paysandu: Jorge; Olinto, Odir, Maurício (Élson), Edilson; Mangaba, Quarenta; Pau Preto, Luciano, Carlos Alberto "Urubú", ´Ércio. Treinador: Gentil Cardoso - Remo: Edgar; Ênio, Ribeiro; Isaías, Socó, Xavier; Jorge de Castro, Estanislau, Sessenta, Câmara (Nivaldo) . Treinador: Sávio Ferreira. Gols do Jogo: Ércio (1). 

Fontes: 

COSTA, Ferreira da. Parazão Centenário - A História do Campeonato Paraense de Futebol, 2012. Página 131. 

LEAL, Expedito. RexPA: A rivalidade gloriosa, 2013, Página 99. 

COSTA, Ferreira da. Gigantes do Futebol Paraense, Vol.1, 2014, Página 132. 

Mestre Calá. Craques na Balança: Quarentinha: O Davi-Golias do Clássico (Reportagem). Jornal "O Estado do Pará", 09 de Abril de 1962. 

Imar Nunes. Esporte em Revista, 16 de abril de 1960. 

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